
Às vezes tenho vontade de fugir. Correr pra bem longe... sumir daqui, e deixar tudo pra trás. Sei que existe uma parte de mim nesse lugar e no meio dessas pessoas. Preciso abrir mão dessa parte, preciso largar, deixar isso escorrer e cair, longe. Tudo é muito confuso, humilhante, triste, agressivo. Não consigo ver uma forma de tornar as coisas melhores. Tinha a esperança de conseguir me tornar apática a isso tudo, mas não dá. São muitos sentimentos oprimidos, escondidos dentro de pessoas que deveriam se amar e não conseguem. O que é família? Não consigo tentar responder. Não consigo... As pessoas que moram comigo só tornam a minha existência mas confusa, triste, deprimente. Elas não conseguem demonstrar o mínimo de afeto umas pelas outras. Só conseguem se afetar nas discussões onde as agressões verbais são inúmeras e profundas. As agressões físicas às vezes são necessárias e deixam marcas que demoram a desaparecer. A distância e o limite entre os corpos parece evidente, mas é só aparência. Ninguém sabe na verdade onde começa e termina. Os corpos estão misturados, juntos, unidos. É um sentindo as dores do outro e brigando por elas, tomando emprestadas as frustrações, os medos as indecisões, sem saber na verdade o que deseja. Ninguém sabe o que quer, e discutem sempre, quando pensam querer o mesmo, e quando se vêem buscando destinos diversos. Não há respeito porque não há limite, ninguém compreende o outro como diferente. É tudo um espelho onde o outro é uma imagem de si mesmo, as vezes agradável, as vezes horrenda.
E o que sobra? O que resta? O que fica? As cicatrizes, ainda abertas, e a vontade de fugir... junto com a ilusão de que longe não existem espelhos.
(E a imagem é a tela do Magritte - Not to be reproduced).